Da psique grega ao Dasein: genealogia de uma psicologia não egóica
DOI:
https://doi.org/10.51473/rcmos.v1i1.2026.2359Palavras-chave:
Psicologia; Epistemologia; Ordens discursivas; Condições de possibilidades.Resumo
O objetivo deste artigo é evidenciar as ordens discursivas que possibilitaram o surgimento da Psicologia, compreendida como campo do conhecimento dividido em duas posições epistemologicamente subjacentes: a metafísica cartesiana e a fenomenologia hermenêutica. O propósito é mostrar como diferentes compreensões historicamente constituídas revelaram suas contradições e condições de possibilidade. O percurso inicia-se pela psique grega, concebida como exterioridade em movimento, que o cristianismo medieval transforma em interioridade dominada pelo desejo pecaminoso. Essa virada conduz à cisão cartesiana derradeira entre corpo e alma, que somente Kant pôde problematizar em termos das condições de possibilidade do conhecimento. Esse deslocamento epistêmico abre espaço para que Husserl reinscreva o ego cogitans, superando o dualismo substancialista pela epoché fenomenológica e disponha a consciência como intencionalidade. O itinerário culmina em Heidegger, que desloca o foco da consciência intencional para a existência concreta do ser-no-mundo. As contribuições contemporâneas da hermenêutica clínica daseinsanalítica, como as de Roberto Novaes de Sá, evidenciam que a psicologia pode constituir-se não apenas como ciência natural da alma substancializada, mas também como disciplina orientada pelo cuidado fenomenológico, capaz de articular a compreensão existencial, a prática clínica e a responsabilidade ética. Nesse horizonte, torna-se possível pensar uma psicologia não egóica, fundada na existência situada e relacional, em meio às tensões permanentes entre orientações metafísicas e fenomenológicas que marcam o Campo Psi.
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